Biblioteca da Tireoide
Por Dr. Rafael De Cicco — CRM 112733 | RQE 46066 — Cirurgião de Cabeça e Pescoço · Atualizado em 28 de setembro de 2026
Depois da cirurgia de um câncer da tireoide, é comum o paciente sair da consulta com a impressão de que precisará fazer ultrassom do pescoço a cada seis meses pelo resto da vida. Hoje, essa ideia precisa ser revista.
O ultrassom cervical continua sendo uma das ferramentas mais importantes no seguimento do câncer diferenciado da tireoide. Ele permite avaliar o leito tireoidiano e os compartimentos linfonodais centrais e laterais sem radiação, com excelente resolução para pequenas alterações cervicais. Mas exatamente por ser muito sensível, também encontra alterações que não representam doença clinicamente relevante.
As diretrizes de 2025 da American Thyroid Association colocam o ultrassom como método preferencial de vigilância por imagem para a maioria dos pacientes com câncer diferenciado da tireoide. A recomendação é realizar um ultrassom cervical aproximadamente 6 a 12 meses após o término do tratamento inicial. A partir daí, a frequência não deve ser automática: ela depende do risco de doença residual ou recorrente e da resposta ao tratamento.
Esse é o conceito mais importante. O seguimento moderno deixou de ser baseado apenas no diagnóstico inicial e passou a ser dinâmico. Um paciente que começou com determinado risco pode, depois da cirurgia, anatomopatológico, tireoglobulina, anticorpos e primeiro ultrassom, demonstrar excelente resposta. Quando isso acontece, a intensidade do acompanhamento pode diminuir. É a mesma lógica dinâmica que hoje orienta a meta de TSH depois do câncer de tireoide.
O primeiro ultrassom pós-operatório tem uma função estratégica. Ele avalia o leito da tireoide e os linfonodos cervicais e, combinado com tireoglobulina e anti-tireoglobulina quando aplicáveis, ajuda a definir se existe evidência estrutural de doença. Em pacientes sem achados suspeitos e com marcadores favoráveis, o risco residual pode se tornar muito baixo.
Isso não significa que qualquer pequena imagem encontrada seja uma recorrência. Após cirurgia, o leito tireoidiano pode apresentar cicatriz, granuloma, tecido residual benigno e pequenas formações inespecíficas. Linfonodos cervicais também são extremamente comuns e, na maioria das pessoas, são reacionais e benignos.
Por isso, a interpretação deve se concentrar em características ultrassonográficas, localização, tamanho, evolução e contexto biológico. Em linfonodos, achados como componente cístico, focos ecogênicos sugestivos de calcificação e vascularização periférica aumentam a suspeita. Já hilo ecogênico preservado e vascularização central são mais tranquilizadores. Forma arredondada, hipoecogenicidade ou ausência de hilo, isoladamente, não obrigam punção.
A ATA 2025 também reforça que nem todo linfonodo suspeito pequeno precisa ser biopsiado. Lesões ou linfonodos suspeitos menores que aproximadamente 8 a 10 mm no menor diâmetro podem ser acompanhados sem PAAF quando não estão crescendo e não ameaçam estruturas vitais como nervo laríngeo recorrente, traqueia, esôfago ou grandes vasos.
Quando uma lesão suspeita mede 8 a 10 mm ou mais e confirmar o diagnóstico mudaria a conduta, a punção aspirativa pode ser indicada. Nesses casos, além da citologia, a dosagem de tireoglobulina no lavado da agulha pode ajudar na avaliação de metástase de carcinoma diferenciado.
Outro erro comum é interpretar qualquer linfonodo encontrado depois de um câncer como metástase. O pescoço contém dezenas de linfonodos e eles respondem a infecções, inflamações dentárias, vias aéreas e inúmeras outras situações. O ultrassom deve responder à pergunta “este linfonodo tem características de metástase?”, e não apenas registrar sua presença.
Importante
Linfonodo não é sinônimo de metástase. O ultrassom deve responder se o linfonodo tem características de metástase — e não apenas registrar que ele existe.
Quem fez tireoidectomia total e apresenta tireoglobulina indetectável ou muito baixa, anti-Tg negativo e ultrassom inicial normal constitui um grupo particularmente importante para desintensificação. Nas diretrizes ATA 2025, pacientes de baixo risco com excelente resposta sustentada podem realizar ultrassom a cada 1 a 3 anos durante os primeiros 5 a 8 anos, em vez de exames semestrais indefinidos.
Mais importante: depois de 5 a 8 anos de excelente resposta sustentada, o ultrassom de rotina pode ser interrompido em pacientes de baixo risco tratados com tireoidectomia total, com ou sem radioiodo. O seguimento pode continuar com marcadores bioquímicos em intervalos maiores, conforme o tratamento realizado e o contexto clínico.
As diretrizes avançam ainda mais: pacientes de baixo risco tratados com tireoidectomia total, com ou sem radioiodo, que mantêm excelente resposta por 10 a 15 anos podem não precisar de monitoramento bioquímico oncológico rotineiro e podem ser considerados em remissão completa.
Essa é uma mudança importante porque durante muito tempo o câncer da tireoide foi associado a seguimento vitalício praticamente automático. Hoje sabemos que, para determinados pacientes, o risco residual depois de muitos anos de excelente resposta é tão baixo que continuar procurando doença indefinidamente pode trazer mais ônus do que benefício.
E depois de lobectomia? O raciocínio é diferente porque existe um lobo tireoidiano remanescente. A ATA 2025 recomenda que, se o ultrassom inicial for negativo em pacientes de baixo risco, novos ultrassons sejam realizados a cada 1 a 3 anos durante 5 a 8 anos. Nódulos que surjam ou já existam no lobo remanescente devem ser acompanhados conforme os critérios usuais para nódulos tireoidianos.
No paciente tratado com lobectomia, a ultrassonografia assume importância especial porque a tireoglobulina é menos útil para detectar recorrência: tecido tireoidiano normal permanece produzindo Tg. A ATA 2025 inclusive não recomenda dosagens seriadas rotineiras de tireoglobulina após lobectomia quando a Tg pós-operatória inicial não está marcadamente elevada.
Isso não significa que todos os pacientes possam seguir exatamente o mesmo calendário. Quem apresenta risco intermediário-alto ou alto, doença linfonodal extensa, características histológicas agressivas, tireoglobulina detectável ou crescente, anti-Tg em elevação ou alterações suspeitas em exames prévios precisa de acompanhamento individualizado e frequentemente mais intenso.
Quando a tireoglobulina ou o anti-Tg começam a subir depois de tireoidectomia total, o ultrassom cervical costuma ser o primeiro exame de imagem. Se ele não demonstra doença estrutural suficiente para explicar o marcador, a investigação pode avançar para tomografia ou outros métodos conforme o padrão de risco e os locais mais prováveis de doença.
O PET/CT não é um exame de rotina para todo paciente em seguimento. Ele é reservado a situações específicas, particularmente quando existe suspeita bioquímica ou clínica de doença e os métodos iniciais não explicam o quadro, especialmente em tumores menos diferenciados ou com baixa avidez por iodo.
Por que não fazer ultrassom a cada seis meses “só para garantir”? Porque rastreamento excessivo tem consequências. Estudos de vigilância demonstraram que ultrassons seriados muito frequentes em pacientes com baixo risco biológico encontram muitas alterações inespecíficas e falsos positivos. Esses achados podem desencadear novas ultrassonografias, punções, exames de imagem e até procedimentos sem que exista doença clinicamente significativa.
Em pacientes de baixo e intermediário risco após tireoidectomia total, quando a tireoglobulina está indetectável e o primeiro ultrassom é tranquilizador, o risco de recorrência linfonodal é muito baixo. Nesse contexto, aumentar indefinidamente a frequência de exames não significa necessariamente aumentar segurança.
Importante
Mais ultrassons podem significar mais falsos positivos, não mais segurança. A frequência deve ser proporcional ao risco residual de cada paciente.
A qualidade do ultrassom também importa. É um exame altamente dependente do operador. A avaliação adequada deve incluir o leito tireoidiano e todos os compartimentos cervicais relevantes, e o profissional precisa conhecer a anatomia pós-operatória e os padrões de recorrência do câncer de tireoide.
Esse ponto tem implicação prática: um exame bem indicado e realizado por profissional experiente pode ser mais útil do que vários exames frequentes, feitos sem padronização e comparados de forma inconsistente.
Também é importante comparar imagens anteriores. Um linfonodo estável por anos tem significado diferente de uma lesão que apresenta crescimento progressivo ou mudança de características. A tendência estrutural, assim como acontece com a tireoglobulina, é frequentemente mais informativa do que uma fotografia isolada.
Na prática, eu organizaria o seguimento ultrassonográfico em cinco perguntas: qual era o risco inicial? Qual cirurgia foi realizada? Houve radioiodo? Como estão tireoglobulina e anti-Tg quando aplicáveis? E o primeiro ultrassom pós-tratamento mostrou alguma alteração relevante?
A partir dessas respostas, definimos a intensidade. Um paciente de baixo risco, com excelente resposta, não deveria necessariamente seguir o mesmo protocolo de alguém com múltiplas metástases linfonodais ou marcador crescente.
Existe ainda uma dimensão importante de qualidade de vida. Exames muito frequentes podem criar o chamado “scanxiety”: ansiedade recorrente antes de cada exame, expectativa por pequenos achados e sensação permanente de que a doença está prestes a voltar. Desintensificar o seguimento quando existe evidência para isso também faz parte do cuidado.
Por outro lado, reduzir exames não significa negligenciar sinais novos. Aparecimento de massa cervical, alteração persistente da voz, sintomas compressivos ou mudanças relevantes nos marcadores exigem reavaliação independentemente do calendário planejado.
O objetivo do acompanhamento moderno não é fazer o maior número possível de ultrassons. É detectar uma recorrência clinicamente relevante em tempo apropriado, evitando investigação desnecessária quando o risco é muito baixo.
Por isso, a pergunta deixou de ser “de quanto em quanto tempo todo paciente com câncer de tireoide deve fazer ultrassom?”. A pergunta correta é: “qual frequência de imagem é proporcional ao risco residual deste paciente agora?”.
Em geral, 6–12 meses após a conclusão do tratamento inicial, conforme ATA 2025.
Não rotineiramente. A frequência posterior depende do risco e da resposta.
Não necessariamente. Em baixo risco com excelente resposta sustentada, o exame pode ser interrompido após 5–8 anos em cenários selecionados.
Sim. Se o ultrassom inicial é negativo, a ATA sugere exames a cada 1–3 anos por 5–8 anos e acompanhamento dos nódulos do lobo remanescente.
O primeiro acompanhamento por imagem continua importante; depois, Tg e resposta global ajudam a definir a frequência.
Não. Linfonodos são comuns; características ultrassonográficas e evolução determinam a suspeita.
Não. Lesões <8–10 mm podem frequentemente ser observadas se estáveis e sem ameaça a estruturas vitais.
Quando é suspeito, mede aproximadamente ≥8–10 mm no menor diâmetro e confirmar o diagnóstico mudaria a conduta.
É a dosagem de Tg no material lavado da agulha, útil como complemento na avaliação de linfonodos suspeitos.
Não. Cicatriz, granuloma e remanescente benigno podem produzir imagens no leito.
Sim. Quanto menor o risco e maior a frequência de rastreamento, maior a chance de encontrar alterações sem relevância clínica.
Pacientes com maior risco, doença prévia relevante, marcadores crescentes ou achados estruturais suspeitos.
Dependendo do risco e da tendência, podem ser indicados exames seccionais ou outros métodos de imagem.
Não. É reservado a situações específicas.
Sim. O exame é operador-dependente e deve avaliar adequadamente leito e compartimentos linfonodais.
Não. Desintensificação depende de baixo risco e excelente resposta sustentada documentada.
Sim. Massa cervical, alteração persistente de voz ou outros sinais relevantes exigem avaliação independentemente da data do próximo exame.
Este conteúdo tem caráter educativo e não substitui uma consulta médica presencial. Cada caso deve ser avaliado individualmente por um especialista.
![]()
Dr. Rafael De Cicco é cirurgião de cabeça e pescoço com atuação destacada em São Paulo, referência nacional no tratamento de doenças da tireoide, paratireoide, parótida e tumores cervicais. Doutor em Oncologia pelo AC Camargo Cancer Center, é atualmente Chefe do Departamento de Cirurgia de Cabeça e Pescoço do Instituto do Câncer Doutor Arnaldo Vieira de Carvalho, com mais de 30 artigos científicos publicados em revistas médicas internacionais. É pioneiro na aplicação de inteligência artificial para avaliação de nódulos tireoidianos e referência em cirurgia robótica e ablação térmica da tireoide.
CRM 112733 | RQE 46066